'Tá tudo alienado, masé!
Olá pessoal da internet!
Espero que se encontrem bem de saúde e seguros.
O que vos tenho a dizer hoje é controverso (nada a acrescentar até agora, controverso é a principal caracteristica do meu blog), pode despontar ira, comentários maldosos, hate... e para os que tiverem dois dedos de testa, concordância.
Pois bem, apesar da situação de Pandemia não me agradar, permaneço uma utilizadora assidua dos transportes públicos (péssima decisão, eu sei), devido a ainda não ter o à vontade necessário para conduzir pela caótica capital, nem o orçamento que o meu burrico precisa para se alimentar, não obstante utilizo-o para me dirigir à central rodoviária. Destas aventuras estão-se vocês nas tintas, mas calma que a coisa já vai ficar interessante.
Apanhei eu o meu autocarro, tranquila e toda contente por ter evitado a hora de ponta (que inocente que sou) e a meio do percurso começam a entrar cada vez mais pessoas. Num transporte onde só vinha eu, mais dois estudantes e um par de idosos, agora havia gente até de pé. Quando paramos nos suburbios da cidade, já havia tanta gente de pé que eu decidi afastar as minhas tralhas do banco ao lado e ceder o lugar a quem tinha entrado (a ideia mais idiota que tive em anos, eu sei). Afastei a mala e proferi ao senhor que se ia sentar:
- Se se sentir confortável, esteja à vontade. - Não levaria a mal que o homem, em plena Pandemia Mundial (algo redundade) rejeitasse sentar-se a meu lado. Para ser honesta, nem nunca o deveria ter oferecido. O senhor, por seu lado, sentou-se e disse bem alto, para que todos ali, naquela secção do autocarro ouvissem:
- Obrigada, sabe, para mim é tranquilo! As pessoas estão é a ser alienadas, isto hoje vive-se numa ditadura democrática.
Eu fiquei chocada! Por momentos pensei que fosse um apoiante do partido comunista. Não que eu seja entendida de politica e partidos, mas é de conhecimento comum que os comunistas estão sempre do contra (é uma piada, acalmem-se). Só que... a senhora do banco do outro do corredor deu em abrir a boca também.
Ou seja, eu, para variar, abri a boca, causei a treta e saí pela porta da frente.
- Mas é que a quem o diz! Agora querem-me obrigar a usar essas aplicações de uma figa! E se eu não tiver telemóvel, como é?! Isto é uma ditadura! É pior que o fascismo!
Ela tem um ponto. Não é justo que o Governo nos obrigue a isso... mas eu também aposto que ela é aquela avó que cada vez que vê uma flôr no canteiro público vai lá meter a novidade ao FaceBook com uma frase feita, e até aposto que tem um par de apps que lhe acedem a dados ainda mais intimos do que o StayAway Covid. Com isto não defendo a medida governamental, aliás eu instalei-a para a testar: há umas semanas um colega meu teve Corona, se a app desse sinal quando estivesse perto dele, ficava com ela, se não desse, desinstalava. Adivinhem: num autocarro com mais de 40 pessoas não apitou, nem quando eu estava ao lado do meu colega. Ou eu estava com muita sorte, ou não funcionava de todo, por isso agora fiquei com mais espaço para fotografias e jogos inuteis.
Bem, mas íamos na conversa civilizada sobre o fascismo...
- Nós devíamos era unir-nos! Somos mais que eles! Mas o povo não quer. O povo fica quieto sem fazer nada!
Ou seja... a meu lado já se estava a planear uma Revolução de Abril, que pelo menos agora seria ligeiramente mais segura, visto não estarmos sob regime autoritário... pelos menos não que eu saiba, mas ambos estavam tão certos de si que eu cheguei a duvidar.
A verdade é que a senhora começou a afirmar uma data de coisas sobre a aplicação que eram metade verdade, metade mentira e disso eu sabia, porque a tinha instalada, porém coloquem-se no lugar de todas as pessoas do autocarro: já não estamos inclinados a usá-la, e esta mulher diz isto, mais vale acreditar e julgar pelo seguro.
- Isto, ouçam o que vos digo, é um atentado à nossa liberdade!!
Senhora, só se for à sua. Não é obrigatório usar, é opcional, só instala quem quer, pronto. O assunto morreu! Na verdade, estava claro que a mulher só queria soltar a suas frustrações que a apoquentavam há mais de 40 anos.
- Se estivessemos a ter esta conversa há anos atrás, já estávamos em Caxias!
Então espera! Assim significa que temos liberdade, não é?! Não sei, era muito cedo, com certeza estava confusa. Todo o seu discurso era muito contraditório. Aliás, toda esta sede de liberdade acendeu-me uma luzinha laranja, pois é gente da geração dela, que viveu na ditadura, que anda a votar em partidos com inclinações... autoritárias, se é que me entendem.
- As gerações de hoje não sabem. O meu pai esteve anos preso em Caxias. Nunca saberão o que foi!
O senhor tinha saído há já algumas paragens, mas a idosa estava decidida a prosseguir o monólogo. Aliás, eu diria mesmo que aquelas palavras me tinham sido dirigidas, porque eu estava orgulhosamente trajada e por carregarem um asco quase palpável, assim sendo manifestei-me. Também posso gritar o que eu quero na carreira ou não? 'Tou um país livre!
- Não sabemos, nem nos ensinam na escola.
Foi o melhor comentário de que me lembrei de cabeça quente, perdoem-me por vos falhar assim. Não que tivesse importância, pois o seu discurso prosseguiu por mais algum tempo. Se a atitude da senhora fosse diferente, eu permaneceria calada, mas a verdade é que não me desvalorizava só a mim, desvalorizava todos os presentes no autocarro. A maioria das pessoas ali viveu na mesma época que ela, quem sabe não passaram por igual ou pior. Viram os maridos, e quem sabe os filhos, irem para a Guerra do Ultramar, viram os seus familiares em Caxias, Peniche... ou simplesmente não sabiam de todo onde estavam! Enquanto aquela mulher cosia as meias, o meu avô lutava em Angola e o meu tio-avô na Guiné. Os meus familiares voltaram, outros não tiveram a mesma sorte.
Sim, o que nos ensinam na escola é só teoria, nunca experienciarei na pele o que foi viver sob uma ditadura e lutarei para que assim seja, pelo que, embora as palavras da idosa me enfurecessem, eu não perdi a compustura, nem fui bruta, nem a mandei silenciar-se. Fui apenas irónica. Estamos numa democracia, embora ela não o queira admitir, ou quer e afinal não sabe... é estranho. Ditadura é uma palavra forte, melhor do que ninguém ela deveria sabê-lo.
Hoje em dia temos acesso a cada vez mais informação, nada nos é sancionado, está à distância de um clique ou de um Hi Siri, de um livro, ou de um jornal e é incrivél! Incrivél mesmo, que as pessoas se fechem e criem teorias da conspiração, de que termómetros servem para ler dados de contas bancárias (para que é que eu quero saber quantas traças há no seu cofre, Maria?!) e que gente poderosa come criancinhas ao pequeno-almoço!
Façamos a comparação: a Idade Média era a Idade das Trevas, porque as pessoas viviam com medo, apenas os clérigos sabiam ler e escrever e o povo não tinha acesso à informação. Criavam-se teorias, mulheres eram queimadas quando inovavam porque eram bruxas, cientistas eram queimados porque o que diziam era contra os desígnios de Deus, e ai de alguém que os contradissesse! Hoje o Estado é laico, posso dizer que sou judia e não me chamam cristã-nova ou arremetem para um campo de concentração, posso dizer que se dane Deus e não serei presa ou queimada; posso dizer que sou contra isto, contra aquilo e ninguém me pode prender! Posso escrever a maior das calunias, o maior dos afrontamentos e ninguém me pode censurar!
Aquela mulher ousou falar de mim, falar de nós, estudantes; não importa se do ensino básico ou secundário, profissional ou universitário, não importa porque ela tem a experiência da vida e nós não, somos muito crus, eu sei, tenho consciência disso, vocês também e dou-lhe o crédito e o respeito por essa vivência. Ela viveu mais do que nós, viu coisas que nunca vimos, mas nós também vimos coisas que ela nunca viu.
Nós estudamos para que lhe possamos acorrer quando for parar ao hospital e preciar de cuidados, ou de uma vacina; somos nós que lhe vamos ensinar os netos, somos nós que estudamos para garantir que aquele fascismo que ela viveu não se repita, e os que como eu, vieram de Humanidades, ou são meros curiosos, sabem que foram os movimentos estudantis que tantas vezes fizeram a mudança. Não preciso nem de referir a Geração Coimbrã, pois essa foi maioritariamente literária e cultural, mas os movimentos estudantis dos anos 60 (e outros tantos antes e depois desses), por dezenas de países, que revolucionaram o panorama politico e social! Nós temos o poder nas nossas mãos para conseguir um futuro cada vez melhor, somos a geração mais bem preparada de sempre!
Portanto eu não admito. Não admito, mesmo, que a geração mais velha nos desvalorize porque carregamos livros ao invés de experiências, porque um dia, carregaremos ambas as coisas, enquanto muitos deles carregam apenas a ultima. Um dia, como eles, teremos um saber de experiências feito, mas não só.
Sim, as pessoas de hoje estão realmente alienadas e é importante que se foquem nos verdadeiros inimigos ou ameaças, ou correm o risco de acertar no alvo errado.



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